Futebol

A história de Doutor

Foi ali, entre perguntas e afirmações cheias de inconformismos vazios e salivas pululantes diante de um semblante sereno do juizão, que Doutor se fez doutor.”

Por Fábio Castaldelli –

Assistindo rodada após rodada o comportamento dos jogadores brasileiros diante das injustiças e mazelas da arbitragem no Brasileirão, lembro cada vez mais de um homem que transformou o juiz em réu e o limite entre as quatro linhas num tribunal campal – literalmente. Em seu RG consta Políbio Siqueira Ramos, a família o conhece como Militão, mas desde aquele dia passamos a chamá-lo de Doutor.

Antes de a bola rolar para o esperado duelo entre Vila Barca Futebol Clube e Atlético Quintal, o clima era de apreensão total, tanto dos mais de 40 torcedores que esperavam pelo jogo sentados nas duras arquibancadas de madeira sem cobertura, quanto dos jogadores – os 11 de cada lado mais os reservas –, técnicos, massagistas, diretores e presidentes.

O duelo, é verdade, não colocava em disputa título municipal ou estadual, nacional ou internacional. Também não era válido por rodada de campeonato algum e nem somava pontos para loteria esportiva. Totalmente escanteado pela mídia, não servia de pauta para os jornais, sejam eles da velha guarda do rádio, ou assinados por repórteres da geração Y, a documentar e compartilhar os lances por meio de smartphones em redes sociais de nomes estrangeiros.

O jogo, no entanto, era mais um épico embate entre o time da rua de cima e o time da rua de baixo – apesar de até hoje, passados mais de 100 clássicos e de realizadas audiências públicas com geógrafos, matemáticos e até secretários municipais de Planejamento e Urbanismo, nunca se chegar a um consenso sobre qual rua estava acima da outra.

Enfim, deixando as polêmicas geográficas de lado e atentando-se mais às questões de ordem, digamos, físicas, o que não faltava nos encontros entre Barca e Quintal era disposição, uma vitalidade invejável apresentada pelos jogadores, trajados de uniformes surrados e chuteiras coloridas, e que a cada novo jogo contrastava-se mais e mais com o cansaço da bola, murcha e ralada pelo seu constante e exaustivo exercício de rotação; uma energia interminável para repetitivos piques até a linha de fundo e, claro, para carrinhos bem dados na altura do joelho do adversário, beliscões no abdome e paulistinhas na coxa.

No Vila Barca, entre os escalados, estava Camundongo, atacante ensaboado e reclamão; Charles Cabelo de Bíblia, centroavante perna-de-pau que só tinha lugar no time porque pagou o jogo de camisas; Zé Pinóquio, mais narigudo que mentiroso; e Beiço Liso, ex-presidiário que não sabe se é canhoto ou destro mas consegue ser violento com as duas pernas – e às vezes com as mãos, cotovelos e testa.

Do outro lado, o craque era Bebetinho, meio-campista e pai solteiro de seis filhas nas horas vagas, todas com presença garantida na torcida. Destaque, ainda, para Luigi Azeitona, canhotinho danado de bom que quase (quase mesmo) perdeu a vida duas vezes: uma em acidente de carrinho de rolimã e outra para o crack; e para o Doutor, o meio-campista mais feio que a cidade já viu. No banco de reservas eu também estava ali, com calção, camisa e meiões do Quintal, todos muito largos para um corpo magro demais.

Quando a peleja iniciou não demorou muito (na verdade não demorou nada) para a estratégia de jogo do Quintal ser colocada em prática: ficar na retranca, tentar roubar a bola e passar para Bebetinho se virar. Não deu outra. Depois de Camundongo andar em círculos e se embananar inteiro, a sobra ficou com Luigi Azeitona, que de imediato acionou a correria de Bebetinho. O lançamento foi na medida. Já dentro da área adversária, ele deu três ou quatro pedaladas até Beiço Liso tentar achar a bola, mas só encontrar um par de canelas finas.

Primeiro, ouviu-se o estalo de chuteira em contato com osso. Na sequência, um grito de dor, acompanhado por um “Aqui não, magrelo! Chupa!”, saído da boca do beque do Vila Barca. O som que todos esperavam, o do apito do juiz, ninguém ouviu. A ausência do silvo foi o convite para uma confusão generalizada. Em poucos seguntos, o árbitro estava rodeado por jogadores do Quintal. “Vocês está cego, professor?”, indagou alguém. “Quebrou a perna dele. Tá maluco”, completou outro.

Foi ali, entre perguntas e afirmações cheias de inconformismos vazios e salivas pululantes diante de um semblante sereno do juizão, que Doutor se fez doutor. Com a voz baixa e olhando fixamente para o meio da testa do árbitro ele pediu a palavra. “Senhor juiz, permita-me destacar em Ipsis litteris o que consta no Ofício nº 19/CA-CBF/17, datado de 9 de maio de 2017, Rio de Janeiro, e que trata das alteração das regras de futebol 2017/18”, introduziu, com pompa, como se declamasse um poema de Drummond ou Bandeira.

Aos poucos, um a um daqueles que cercavam o juiz e diziam palavras chulas pararam para ouvir Doutor, que agora, ainda mais confiante pela atenção recebida, continuou sua fala. “Ora, a Regra 12, que trata das faltas e incorreções, pontua claramente que um jogador que impede um ataque prometedor em sua própria área penal não deve ser punido com cartão amarelo, se a falta for imprudente e cometida tentando jogar a bola”, afirmou.

“Ademais”, prosseguiu, “se a falta cometida na própria área penal impedir uma clara oportunidade de gol, e foi o que ocorreu, deve ser aplicado um cartão amarelo, se a falta for cometida tentando jogar a bola. Pois veja, senhor juiz, que a falta cometida por Beiço Liso, não só foi pênalti, como passiva de cartão amarelo. E vossa excelência adotou uma postura deveras acovardada, invés de colocar em ação àquilo se espera de ti: aplicar a lei”.

Nesse momento, Doutor já parecia ter o dobro do seu 1,80 metro – o que, proporcionalmente, o deixava também duas vezes mais feio. Suado, empolgado com a missão de atuar como advogado de defesa de seu time e assistido por um júri de torcedores atônitos na arquibancada, Doutor encerrou seu discurso com mais um argumento. “Assim, diante dos fatos presenciados por estas dezenas de testemunhas oculares, faço questão de frisar que as expressões ‘aqui não, magrelo’ e ‘chupa’, usadas pelo acusado, enquadram-se na regra, também de número 12, e que pontua que as infrações verbais ou gestuais devem punidas com TLI, ou seja, tiro livre indireto”, completou Doutor, sorrindo com dentes extremamente brancos à mostra.

À frente dele, envergonhado, o juiz fazia beicinho, com cara de choro. Nem pênalti, nem cartão. Passados 2 minutos de bola rolando e outros 15 de julgamento, o árbitro levou o apito à boca e utilizou o último sopro de sua carreira para encerrar o jogo. Depois saiu correndo.

Com certa admiração no olhar, todos miraram Doutor esperando que ele falasse alguma coisa sobre o mais rápido dos clássicos entre Vila Barca Futebol Clube e o Atlético Quintal.

E ele disse: “Puta sacanagem, gente. Esse safado desrespeitou a Regra 7, sobre a duração da partida”.

E foi aplaudido por todos.

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